CELEBRAÇÃO BELDADE NEGRA: QUANDO UMA MULHER NEGRA SE RECONHECE, UMA HISTÓRIA COMEÇA A SER RESCRITA.


CAMPANHA COMBATE Á DENGUE E ÁRBOVIROSES


Simões Flho,BA:  Em sua 8ª edição, celebração da Instituição Socioeducacional Abayomi une identidade, memória, autoestima e educação em uma ação afirmativa que chega aos 15 anos da instituição

 

Simões Filho (BA)  25 de setembro de 2026.

Há perguntas que parecem simples, mas carregam séculos de história: quem ensinou uma menina negra a reconhecer a própria beleza? Quem disse a ela que seus traços, seu cabelo, seu corpo e sua história também poderiam ocupar o centro da cena? E quantas histórias negras ainda precisam ser conhecidas para que novas gerações possam reconhecer a si mesmas? É a partir dessas perguntas que nasce a Celebração Beldade Negra — Eleição da Queen Abayomi, que chega à sua 8ª edição, em uma edição especial que celebra os 15 anos da Instituição Socioeducacional Abayomi, em Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador.

 

Mais do que uma eleição, a Beldade Negra é uma ação afirmativa de desconstrução dos padrões de beleza impostos historicamente por uma sociedade racializada, que durante séculos colocou a estética branca como referência universal de beleza, feminilidade e pertencimento. Na Abayomi, a beleza não é compreendida como um fim. Ela é ponto de partida para o reconhecimento identitário.

 

UMA RAINHA PARA RECONTAR UMA HISTÓRIA

A própria escolha do nome Queen Abayomi carrega uma dimensão pedagógica.

A inspiração vem de Queen Nanny, ou Nanny of the Maroons, liderança histórica dos Maroons jamaicanos, reconhecida por sua atuação na resistência contra o domínio britânico e pela preservação da memória, dos costumes e da autonomia de seu povo. A Jamaica reconhece Nanny como uma de suas heroínas nacionais. (Jamaica Information Service) Escolher Nanny como referência é também uma escolha política de memória: levar para a periferia uma história que muitas vezes não chega aos livros escolares, às conversas cotidianas ou às referências que formam o imaginário de uma criança negra.

 

A proposta é que o conhecimento produza uma pergunta. Depois da pergunta, uma pesquisa. Da pesquisa, um encontro. E desse encontro, talvez, o reconhecimento: “Essa   história também é minha.”

 

É nesse movimento que a Beldade Negra transforma a passarela em espaço educativo.

 

NOVENTA DIAS PARA VOLTAR A SE ENXERGAR

 

As participantes não chegam à Abayomi apenas para desfilar.

 

Durante aproximadamente 90 dias, elas vivenciam um processo que reúne oficinas, rodas de diálogo, pesquisas, atividades culturais, reflexões sobre identidade, autoestima e questões sociais, construindo coletivamente os caminhos que levam até a celebração.

É um processo de voltar para dentro. De olhar para si. De descobrir referências. De compreender a própria história. E, para algumas participantes, é também a primeira oportunidade de se perceberem não apenas como meninas ou mulheres negras, mas como mulheres negras bonitas, potentes, pertencentes e dignas de ocupar espaços de protagonismo. Por isso, a celebração acontece somente depois do processo. Porque primeiro vem a construção. Depois, a passarela.

 

A BELEZA NEGRA COMO QUESTÃO DE SAÚDE, PERTENCIMENTO E VIDA

 

A realização da 8ª edição em setembro ganha uma dimensão ainda mais significativa por acontecer durante o Setembro Amarelo, mês dedicado à prevenção do suicídio e à promoção do cuidado em saúde mental. A Abayomi atua diretamente com famílias da periferia e mantém uma relação próxima com mulheres que são, muitas vezes, as principais responsáveis pela manutenção de seus lares. São mães, cuidadoras, trabalhadoras e mulheres que carregam múltiplas responsabilidades. E são elas também que, nesta edição, estarão na passarela.

 

A proposta não é reduzir questões complexas de saúde mental a uma única causa, mas reconhecer que racismo, desigualdade, invisibilidade, solidão e ausência de pertencimento podem atravessar a experiência de mulheres negras e precisam ser discutidos quando se fala em cuidado e saúde. O próprio Ministério da Saúde reconhece que raça/cor constitui um determinante social que impacta as condições de saúde e inclui a saúde mental entre os eixos da atenção integral à população negra. (Serviços e Informações do Brasil) A Beldade Negra, portanto, trabalha em outra direção: produzir pertencimento antes que a invisibilidade produza silêncio.

 

Não se trata de dizer que uma coroa resolve dores profundas. Trata-se de compreender que ser vista, ser reconhecida, construir referências e poder dizer “eu pertenço” também são experiências humanas importantes na construção da autoestima.

 

“NÃO QUEREMOS APENAS ENSINAR UMA MENINA A DESFILAR. QUEREMOS ENSINÁ-LA A SE ENXERGAR.”

 

Para Mel Girassol, presidenta e fundadora da Instituição Socioeducacional Abayomi, a Beldade Negra nasce justamente da necessidade de devolver às mulheres negras o direito de construir suas próprias referências.

 

“Nós não fazemos uma eleição de beleza. Nós fazemos uma disputa de narrativa. Durante muito tempo, disseram às meninas negras o que era bonito, quem poderia ser rainha, quem merecia ser escolhida e qual corpo deveria ocupar o centro. A Beldade Negra devolve a elas o direito de olhar para a própria história e dizer: eu também sou referência. Eu também sou beleza. Eu também sou possibilidade.” E completa:

 

“A coroa é apenas o símbolo. O verdadeiro prêmio é quando uma mulher negra volta para casa se enxergando de uma maneira que talvez nunca tivesse conseguido se enxergar antes.”

 

ABAYOMI: 15 ANOS TRANSFORMANDO O IMPOSSÍVEL EM POSSIBILIDADE

 

A Beldade Negra é uma das principais ações afirmativas da Instituição Socioeducacional Abayomi, que completa 15 anos de atuação em 2026. Fundada em 2 de março de 2011, em Simões Filho, a Abayomi desenvolve ações de educação, cultura, identidade e transformação social a partir da realidade da periferia. Entre suas iniciativas estão projetos como o Favela em Foco, a Mesa Farta Abayomi e outras ações socioeducativas que articulam cultura, alimentação, educação, memória, cidadania e fortalecimento comunitário. Ao longo de sua trajetória, a instituição também se tornou uma importante articuladora cultural no município.

 

Foi através da Abayomi que o Ilê Aiyê realizou sua primeira apresentação em Simões Filho, assim como a Banda Didá chegou pela primeira vez ao município por meio da instituição. A Beldade Negra também já recebeu grandes nomes da cultura baiana, entre eles Tatau. São 15 anos construindo pontes entre a periferia e grandes expressões da cultura negra.

 

UMA CELEBRAÇÃO QUE PRECISA SER VISTA

 

Para a Abayomi, levar a Beldade Negra para a televisão, para o rádio, para os portais e para os demais meios de comunicação não é apenas divulgar um evento.

 

É ampliar o alcance de uma mensagem.

 

Porque quando uma menina negra vê outra menina negra sendo reconhecida na televisão, quando uma mãe vê uma mulher parecida com ela ocupando uma passarela, quando uma família percebe que sua história também pode ser notícia, a comunicação deixa de ser apenas registro e passa a ser parte da ação afirmativa. A Beldade Negra quer chegar a quem ainda não sabe que pode se reconhecer. Quer provocar curiosidade sobre a própria história. Quer produzir referência onde antes havia ausência. E quer fazer da beleza uma porta de entrada para conversas maiores sobre identidade, autoestima, racismo, memória, educação e pertencimento.

 

A DEBUTANTE É A ABAYOMI

 

Em 2026, a Abayomi completa 15 anos.

 

E, como toda debutante, chega à sua celebração olhando para o caminho percorrido e para aquilo que ainda pretende construir. A aniversariante desta edição é a própria Abayomi.

A instituição que nasceu na periferia. Que transformou cultura em educação. Que transformou arte em ferramenta de transformação. Que criou oportunidades onde disseram que não havia possibilidades. Por isso, o lema dos seus 15 anos não poderia ser outro: SOMOS O IMPOSSÍVEL.

A 8ª Celebração Beldade Negra — Eleição da Queen Abayomi acontece em 25 de setembro de 2026, às 16h, em Simões Filho (BA).

 

Uma celebração de beleza. De memória. De ancestralidade. De identidade. De mulheres.

De comunidade.  E, sobretudo, de reconhecimento. Porque antes de uma mulher negra ser escolhida por alguém, ela precisa ter a oportunidade de se escolher.

 

Mel Girassol

Presidenta da Instituição Socioeducacional Abayomi.

 

Fonte: ASCOM_Abayomi_Mel_Girasol

 

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