Unidade de Saúde da Família do Candeal homenageia moradores históricos da localidade – Secretaria de Comunicação


Foto: Lucas Moura / Secom

Quem chega hoje à Unidade de Saúde da Família (USF) do Candeal, recentemente requalificada pela Prefeitura de Salvador, encontra um painel com fotos de moradores que ajudaram a construir a história do posto de saúde e também da localidade. Realizada através da Secretaria Municipal da Saúde (SMS), a homenagem foi fruto de uma demanda da própria comunidade, que tem origem na força das mulheres e da herança da cultura africana.

Maria Gorda, Dona Didi, Dona Lisô, Mãe Maiamba, Dona Vanju, Dona Damiana, Dona Sousa, Dona Concessa, Dona Marina, Seu Francisco e Maria José foram algumas dessas pessoas que lutaram e ajudaram na instalação da unidade, há mais de duas décadas. A gerente da USF Candeal, Ariadni Barbosa, conta que chegou à unidade em abril de 2023 e buscou entender quais eram as necessidades do local, chegando então às obras para melhorias na estrutura e serviços.

“Com a requalificação, Ruth (Buarque, diretora de Desenvolvimento Social da Escola Pracatum) deu a ideia de fazer uma homenagem a essas mulheres que tiveram a ideia do posto, e foi maravilhoso. Todos ficaram muito emocionados, choraram, foi emocionante. Os 20 anos da USF foram bem representados com a requalificação e com essa homenagem, pois muitas pessoas não sabiam a real história de quem trouxe para cá o posto”.

O secretário da Saúde, Alexandre Reis, destaca a importância do gesto solene realizado para toda a população do Candeal. “Esta homenagem é mais que merecida. Nossa missão é seguir garantindo a continuidade de cuidados e assistência necessária aos moradores, como vem ocorrendo ao longo do último ano e meio, com a ampliação e qualificação da rede municipal de saúde. Candeal e adjacências já estão usufruindo de uma unidade totalmente reestruturada, muito mais acolhedora, com melhorias nos equipamentos e um maior número de equipes compostas por profissionais qualificados para fortalecer ainda mais a atenção para com a população”, declara.

Simbolismo – Para Ruth, a forma como a USF foi pensada é algo bastante simbólico. “Aqui é um bairro predominantemente feminino, é um bairro de mulheres que cuidam. Essas mulheres criaram grandes movimentos no bairro, desde a ocupação da Rua 9 de Outubro, a Associação 9 de Outubro, a Associação Defesa e Progresso, e esse movimento de lavadeiras, que cuidam dos seus, então o posto vem deste movimento. Foi uma escolha difícil chegar aos 11 homenageados, mas decidimos que seria em sua maioria, póstumos. Deles, apenas Dona Didi está viva, e toda a descendência vem dela”.

Prestes a completar 106 anos, Hilda Quirino, a Dona Didi, é tataraneta de Josefa de Santana, negra liberta da Costa do Marfim que chegou ao Brasil em 1769 e fundou o Candeal ao lado do marido, Manuel Mendes. Hoje, dona Didi é ialorixá da Casa de Ògún, único terreiro no Brasil que faz culto exclusivamente ao orixá Ogum, localizado no Candeal Pequeno. Devido à idade avançada, não foi possível entrevistá-la.

Impacto – Filha de Dona Damiana Pereira dos Santos e mãe de Carlinhos Brown, Madalena Santos de Freitas, 77 anos, a dona Madá, conta que ficou bastante emocionada com a iniciativa. “Me sinto feliz, agradecida, não só por mim mas por todos. Através de tudo isso, do pai de Jair (seu Francisco) ter feito essa coisa do terreno (doação), o trabalho social de Carlinhos, hoje o Candeal é bem servido e estruturado. Temos este posto de saúde maravilhoso, a Pracatum. Fiquei felicíssima com a lembrança”, disse.

Outra mulher celebrada pelo legado deixado é Lisonete Guedes, falecida em fevereiro último, aos 77 anos. O posto, aliás, acolheu dona Lisô, que foi paciente da USF por mais de dez anos, criando um vínculo de amizade com profissionais da unidade.

“A homenagem foi impactante e é uma sensação boa, positiva, pois é uma herança deixada por ela, este legado de guerreira, de uma das primeiras mulheres do Candeal, uma das primeiras a dirigir um automóvel. Minha mãe era uma figura. As pessoas diziam ‘você não existe Lisô’ e ela respondia: ‘existo sim e estou aqui’. Esses chavões que ela tinha deixam uma certeza maior da mulher que ela foi, quando a gente vê a recíproca do carinho da comunidade”, declarou um dos quatro filhos de dona Lisô, o músico Alexandre Guedes, da banda Motumbá.

Dona Concessa – A jornalista e fotógrafa Ivana Flores, de 42 anos, contou um pouco da história da avó, Maria Conceição Alves, a dona Concessa. Nascida em 1915, Conceição foi criada pela mãe, que era lavadeira, com muita dificuldade. Quando adolescente, foi entregue para um casal com melhores condições financeiras para criá-la, que residiam no Cabula. Com o marido, que foi o primeiro namorado, decidem em 1945 ir viver onde hoje é o Candeal. Faleceu em 1996, mas até hoje as raízes permanecem fincadas no bairro.

“Lá se vão seis gerações da família e todos nós ficamos felizes por ter minha vó, dona Concessa, sendo reconhecida como uma grande mulher que também contribuiu para a construção social e física da comunidade do Candeal. É fundamental alimentar a memória dos que vieram antes. Saber de onde viemos é imprescindível para nos entendermos hoje, para amanhã darmos passos certeiros em nossa caminhada. Antes de existir essa unidade de saúde, a contribuição de minha família era através das rezas com folhas para mau olhado, alguma dor de cabeça, remédios caseiros, coisas assim”, relatou.

Homenagem dupla – O músico Everson Barbosa, conhecido como Menino Sinho, de 42 anos, tem duas avós homenageadas no Candeal, Evangelina Alves Rodrigues (Dona Vanju), e Benildes Cerqueira Xavier (Dona Sousa). “Dona Sousa, minha avó materna, faleceu em 2017 com 83 anos. Cuidou de mim dos 4 aos 10 anos de idade e era bem tranquila, dona de casa, lavadeira, fazia comida, levava a gente para o médico, era uma mãe em dobro. A outra avó, dona Vanju, era um pouco o oposto. Mais agitada, uma senhora que nunca entrou em uma sala de aula, não assinava nem o nome, mas criou dez filhos. Ela também contribuiu na minha infância porque eram vizinhas”.

“Vê-las homenageadas, para mim, é uma honra, nossa ancestral homenageada, apesar de que dentro da gente, a gente as reconhece porque continuam vivas em nós, na nossa caminhada. Somos parte delas e sinto honra e orgulho, pois elas contribuíram para a educação da comunidade, que tem uma cultura parecida com a de cidades do interior, onde todo mundo se conhecia”, completou.

Herança – Diretor da Associação Lactomia Ação Social, Jair Rezende é um dos 19 filhos do casal Francisco Chaves e Maria José Rezende de Miranda, que doou o terreno para construir a USF, há mais de 25 anos. “Este espaço sendo cedido para a Saúde, para cuidar da saúde, mas mantendo a essência, a origem das pessoas que viveram aqui, que contribuíram para melhorar a comunidade, é fundamental. Ter a memória dos nossos pais ainda viva na comunidade, com a nova geração conhecendo a cultura, o que aconteceu, é importante”, declarou.

Rezende contou que se impressionou com o cuidado os responsáveis pela unidade que tiveram com a comunidade. “A Saúde teve um carinho, está tudo lindo. Vi a imagem dos meus pais e fiquei comovido. E o próprio Carlinhos (Brown), que estava presente, falando da história do bairro, das pessoas que deixaram um legado, tendo a comunidade como família, como desenvolvimento, é importante. O legado impacta na nossa vida e na de outras pessoas e o desafio é dar continuidade e honrar sempre, repassando para as próximas gerações”, finalizou.

Outras homenageadas – Herdeira das tradições de Mãe Margarida, em Cosme de Farias, Angelina Martins dos Santos, a mãe Maiamba (citada na música “Dandalunda”, de Carlinhos Brown), foi a fundadora do terreiro Mutuiçara, no Candeal, das nações Ketu e Angola, na década de 1940. Faleceu em 2011.

Maria José Menezes dos Santos, mais conhecida como Maria Gorda, foi uma profunda conhecedora das ervas medicinais e uma das principais rezadeiras do Candeal, além de parteira na época em que ainda não existia o posto de saúde. Nascida em 1940, no município baiano de Santa Inês, a bisneta de escrava veio para Salvador em 1961 e chegou ao bairro na década de 1970. Faleceu em 2016.

Marina Barreto foi uma das moradoras mais queridas da comunidade. Faleceu com mais de 90 anos.

Reportagem: Ana Virgínia Vilalva/ Secom

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