Simões Filho: Caminhos para o Futuro, sob “Vaias da Cidadania” o justo Protesto de Estudantes é Democracia

 SIMÕES FILHO, BA – O que foi planejado pela Prefeitura de Simões Filho para ser um ato de propaganda política, no último sábado (14), transformou-se em um poderoso palco para o exercício da cidadania. Durante o lançamento do projeto “Caminhos para o Futuro” na Escola Ressurreição, as autoridades municipais, que esperavam aplausos, foram recebidas por um coro de vaias. O protesto, vindo de universitários e seus familiares, não foi uma rejeição ao novo projeto, mas sim um legítimo e sonoro “não” a cinco meses de negligência, silêncio e descaso com o transporte universitário, somado à incapacidade da gestão de lidar com o contraditório..

Publicado por Redação Nacional 16 de junho de 2025

A Gênese do Protesto: Cinco Meses de Abandono

O descontentamento que ecoou no ginásio tem uma origem clara: uma via-crúcis de cinco meses em que os estudantes da cidade foram deixados em completo desamparo. A interrupção do serviço de transporte universitário causou sérios prejuízos acadêmicos e financeiros, forçando muitos a arcar com custos extras ou até mesmo a arriscar o semestre letivo. Durante este período, as tentativas de diálogo foram marcadas por sucessivas e fracassadas reuniões e por declarações infelizes da secretária Heliene Mota, que, segundo os discentes, apenas aprofundaram o sentimento de desrespeito e abandono.

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Um Histórico de Negligência

A crise atual, no entanto, não é um fato isolado, mas o capítulo mais recente de um histórico de precarização. Em 18 de março de 2023, um ônibus que atendia os estudantes apresentou uma pane com princípio de incêndio no motor na região da UFBA, em Salvador, um incidente que já denunciava a fragilidade do serviço.

A continuidade da negligência é gritante. A atual gestão, intitulada “Uma Aliança pela Nossa Gente”, é composta em seu primeiro escalão por membros da administração anterior, “Boa Terra Boa Gente”, o que demonstra uma linha direta na manutenção dos problemas. Como a Redação Nacional apontou em editorial de 8 de março deste ano, no apelo da universitária de Fisioterapia, Lavínia, a prefeitura, através de sua Comissão Permanente de Licitação (COPEL), já falhava em planejar e garantir a continuidade do serviço, omitindo-se em dialogar com os principais interessados: os estudantes.

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O Projeto de Lei: Solução Real ou Cortina de Fumaça?

No evento de sábado, a gestão apresentou a promessa de uma solução definitiva: a elaboração de um Projeto de Lei que tornaria a prestação do serviço de transporte uma obrigatoriedade do município, blindando-o de futuras interrupções. Em tese, a medida é positiva e necessária. A pergunta que ecoou entre os estudantes, no entanto, foi sobre o timing. Por que a solução, aparentemente simples, só foi apresentada após cinco meses de caos, prejuízos e intensa mobilização social? A iniciativa, para muitos, soou menos como planejamento e mais como uma tentativa de controle de danos diante da pressão popular.

A Intolerância ao Contraditório

O ponto mais crítico do evento, contudo, foi a reação das autoridades que discursaram. Em vez de demonstrarem empatia, reconhecerem as falhas e celebrarem a futura solução como uma conquista conjunta, optaram por criticar a manifestação dos estudantes. Este gesto revelou um profundo despreparo para o contraditório e uma falta de sensibilidade democrática. Em uma República, a vaia é um instrumento válido de descontentamento, um recado direto do cidadão que não se sente ouvido pelos canais institucionais. Repreendê-la é um atestado de desconexão com a realidade da população que se governa.

As vaias não foram contra o futuro, mas sim contra o passado recente e um presente de desrespeito. Se o diálogo tivesse sido republicano e transparente desde o início, o encontro de sábado poderia ter sido uma celebração. A gestão teve a chance de oferecer um pedido de desculpas e um plano; em vez disso, reagiu com repreensão. Em Simões Filho, no último sábado, o poder público não ouviu apenas vaias. Ouviu o eco do seu próprio silêncio.

A Intolerância e a Reviravolta

Em meio à tensão crescente, o prefeito Devaldo Soares (Del) tomou a palavra e, em um movimento inesperado, foi ao encontro dos universitários. O que se viu a seguir, contudo, alterou o roteiro do confronto. 

Com um discurso forte, o prefeito, Del do Cristo Rei,  defendeu as ações de sua administração e fez uma afirmação contundente: legalmente, não existiria uma lei que obrigue o município a fornecer o transporte. A declaração, ao mesmo tempo que buscava justificar a lacuna no serviço, reforçava ironicamente a necessidade do próprio projeto de lei que estava sendo apresentado para, justamente, criar tal obrigação.

No entanto, após expor seus argumentos, o gestor finalizou sua fala em um tom que surpreendeu a todos. Olhando diretamente para os estudantes e seus familiares, Del pediu perdão. Um perdão claro e direto pelos transtornos, pela angústia e pelo sofrimento causados durante os cinco meses de paralisação. O pedido de desculpas, embora tardio e precedido de uma justificativa controversa, encerrou o episódio com uma nota complexa. Se as vaias foram o som da cidadania exigindo direitos, o perdão do prefeito, ao final, representou o reconhecimento, ainda que forçado pela pressão, da mais fundamental das obrigações de um gestor: a responsabilidade política para com sua gente.

Fonte, Fotos e Vídeo: Redação Nacional

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